quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Como funcionam as discussões entre mãe e filha:
Falar da relação mãe e filha sem mencionar os conflitos é impossível. Em média, mães e filhas discutem de dois em dois dias, enquanto com os filhos a cada quatro.

Os dados, que resultaram de um estudo da Universidade de Cambridge, de 2004, apontam ainda que as discussões entre as mulheres durem cerca de quinze minutos, enquanto os conflitos entre mãe e filhos rondam os seis. Na forma de discutir também há diferenças.

No caso das mulheres, indica Sherry Beaumont, professora de psicologia na Universidade Northern British Columbia, no Canadá, as discussões são mais acesas e fortes. Durante os conflitos, as raparigas falam mais depressa, interrompem a mãe e ficam mais perturbadas emocionalmente do que os rapazes. Os filhos discutem menos, e não ficam tão abalados.

A psicóloga Sherry Beaumont defende que os conflitos entre mãe e filha são normais e que, apesar de serem mais intensos, são elas que retêm mais sentimentos positivos depois da discussão.

Entrevista com a pesquisadora americana Deborah Tannen, professora do departamento de linguística da Universidade Georgetown:

Por que a relação entre mãe e filha costuma ser tão complicada e conflituosa?
Mães e filhas são extremamente próximas. Elas se observam e se analisam num nível intenso. Por isso, acabam enxergando falhas e defeitos que ninguém mais detecta. E se dão o direito de mencioná-los.

Como assim?
A mãe quer sempre ver a filha melhorar, seja na aparência, seja nas decisões importantes da vida. A filha, por outro lado, quer ser vista como perfeita. Como as expectativas são distintas, uma acredita que está dando uma demonstração de afeto ao fazer comentários que a outra vê como críticas.

A senhora diz que mulheres gostam de dividir sentimentos e experiências e acabam falando demais. Isso é um problema para o relacionamento?
Sim. Para as mulheres, a conversa funciona como uma cola que mantém as relações unidas. E isso é arriscado. Quanto mais se fala, maior a possibilidade de dizer algo errado. Entre mãe e filha, o risco é ainda mais presente, já que tudo que é dito tem um peso enorme.

A competição é um dos componentes que tornam a relação tão explosiva?
Às vezes, sim. Mães e filhas podem competir para ver quem é a mais atraente, a mais bem-sucedida, a mais bem vestida. A mãe pode sentir inveja de ver a filha ter oportunidades que ela própria não conquistou. Também pode acontecer de a filha sentir que não está obtendo realizações à altura das conquistadas pela mãe. Isso ocorre em muitos aspectos, da forma de se vestir à maneira de educar os filhos.

Quais são os piores erros cometidos por mães e filhas em suas conversas?
As mães oferecem conselhos, sugestões e ajuda que não foram solicitados. E as filhas tratam as mães com insensibilidade e desumanidade, modos que certamente não usam com outras pessoas.

É possível não encarar os comentários das mães como críticas ou palpites fora de hora?
Esse é um grande desafio. Ambas precisam perceber que cuidados e críticas caminham juntos. Aconselho as mães a seguir um mantra: não aconselhe, não critique. E sugiro que as filhas interpretem os comentários de forma mais leve. E, diante de um que pareça desagradável, pergunte o que a outra quis dizer antes de tirar conclusões negativas e precipitadas.

Qual postura adotar quando a mãe opina sobre os netos e o genro?
Nunca responder no nível do comentário. Não deixar a discussão render. É preciso manifestar a insatisfação e dizer que esse comportamento só as distancia. Às mães, aconselho morder a língua e só manifestar opiniões quando solicitadas.

O relacionamento melhora quando a filha tem os próprios filhos?
Não necessariamente. Mas há um ponto positivo, que é a mudança de foco da filha para os netos. Nessa fase, mãe e filha deixam de ser o tema de todas as conversas. A filha admira a experiência da mãe com a maternidade e a mãe se sente útil envolvida na vida da filha.

Durante a pesquisa para o livro, o que mais a surpreendeu nesse relacionamento?
O número de vezes em que ser parecida com a mãe ou diferente dela entrou na pauta. Ambas tentam se achar na outra incansavelmente.

Qual o papel do pai nessa relação?
A mãe tende a ver a ligação entre seu companheiro e sua filha com ressentimento. Ela se sente excluída, o que é muito doloroso para as mulheres.

Como o pai deve se comportar?
É importante não descartar a preocupação da mãe. Ele nunca deve dizer "deixe para lá", "não sei por que você entra nessas discussões com ela" ou "esqueça, isso não é nada". É fundamental que ele expresse simpatia, compreensão e preocupação. Outra sugestão é não se posicionar na defesa de uma delas.

Por que a senhora nunca teve filhos?
Eu poderia dizer que as circunstâncias da vida não permitiram. Mas a verdade é que nunca realmente quis. Quem consegue entender os desejos humanos?

Amor e ódio entre mãe e filha. Só o diálogo pode equilibrar essa difícil relação.

Num momento, vocês estão rindo juntas, vendo TV e conversando sobre seus paqueras! No outro, brigam, se irritam e uma diz a outra, coisas horríveis, que nem queria dizer, mas escaparam na hora da raiva. Essa mistura de amor e ódio é muito comum nas relações entre mãe e filha. Perguntamos a psicóloga Sandra Vasques, do instituto Kaplan – Centro de estudos da sexualidade humana se há uma solução para essas brigas. Ela respondeu que sim. Confira.

1. Ser responsável – Sua mãe precisa entender que o contato com novos valores e realidades é necessário para você crescer. É natural que ela tenha medo de “soltar” a filha para administrar, sozinha e aos poucos, a própria vida. Porém, você pode ajudá-la, mostrando que vai se basear naquilo que ela te ensinou para fazer tudo: desde atravessar a rua até perceber as pessoas boas e ruins à sua volta.

2. Entender os limites – pode não parecer na hora que você recebe um “não”, mas a sua mãe só quer o seu bem e, sendo colocado é essencial. Então, com calma, conversem. O diálogo é necessário nesse momento. E você precisa mostrar que é muito responsável para ter liberdade.

3. Conversar – Não é só na hora da briga que o diálogo é importante, não. Mãe e filha devem conversar sobre tudo sempre! Às vezes, a mãe tem receio de falar de certas coisas por entender que pode estimular e incentivar a filha, em vez de alertar. Mas não tem jeito: tem de ter o diálogo. Quando não há a possibilidade de dialogar, outras formas de instrução devem ser adotadas, como livros e jogos.

4. Conhecer as regras – Até os 10 anos, você aprende, aceita e se conforma com os ensinamentos dos seus pais. A partir daí, passa a ter uma turma e descobre que cada um é criado de um jeito. Surgem os conflitos entre as regras da sua casa dos amigos. Mas você sabe que cada família é de um jeito e que precisa se entender com a sua, encontrando um consenso, o que acontecerá com diálogo.

“A menina briga mais com quem assume a função de responsável por ela e, geralmente, o pai deixa essa tarefa para a mãe, por isso as discussões.